Quem sou eu?

Publicado: 20 de agosto de 2015 em Sem categoria

Deixe-me apresentar a vocês:

Sou Maurício Montagnero, pastor da Igreja Batista da Liberdade em Descalvado. Sou graduado em Teologia, bacharel, e em Filosofia, licenciatura. Sou pós-graduado em Teologia Contemporânea e Pós-Graduado em Aconselhamento Filosófico.

Amo assuntos relacionados ao reino de Deus e a pessoa dEle, e sou um apaixonado pelo Pai.

Amo o que eu faço e o que eu sou!!

Espero ser agradável a todos vocês que lerão ou acompanharão esse blog.

Forte abraço e que o Deus de paz esteja com todos!!

2014 - 2015 188

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SÉRIE 5 SOLAS: Sola Deo Gloria!

Publicado: 1 de novembro de 2017 em Sem categoria

Comemoramos neste mês os 500 da reforma protestante e o nosso blog compartilhará, a cada semana, um tema daquilo que praticamente é o resumo da Teologia Protestante que é as 5 Solas. Essas serão retiradas do blog Voltemos ao Evangelho: http://voltemosaoevangelho.com/blog/2013/09/sola-scriptura-serie-5-solas-15/

Nesta segunda etapa ver-se-á o SOLA DEO GLORIA!

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Usamos a frase glória de Deus com tanta frequência que ela tende a perder sua força bíblica. Mas essa glória, como o sol, não é menos ardente – e não menos benéfica – porque as pessoas a ignoram. No entanto, Deus odeia ser ignorado. “Considerai, pois, nisto, vós que vos esqueceis de Deus, para que não vos despedace, sem haver quem vos livre”. (Salmo 50:22). Então, vamos nos concentrar novamente na glória de Deus. O que é a glória de Deus e quão importante ela é?

O que é a glória de Deus?

A glória de Deus é a santidade de Deus colocada em exposição. Isto é, o valor infinito de Deus manifestado. Perceba como Isaías muda de “santo” para “glória”: “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”. (Isaías 6:3). Quando a santidade de Deus enche a terra para que as pessoas vejam, ela chama-se glória.

O significado básico de santo é “separado do comum”. Assim sendo, a santidade de Deus é a sua infinita “separação” de tudo o que é comum. É isso que o faz ser o único infinito – como o diamante mais raro e mais perfeito do mundo – só que não existem outros deuses-diamantes. A singularidade de Deus como sendo o único Deus – Sua “Divindade” – o faz infinitamente valioso e santo.

Ao falar da glória de Deus, a Bíblia admite que este valor infinito teve sua entrada na criação. Brilhou, assim como era. A glória de Deus é o resplendor da sua santidade, a irradiação do seu valor infinito. E quando ela flui, é vista como bela e grandiosa. Ela tem tanto a qualidade de ser infinita quanto a magnitude. Desta forma, podemos definir a glória de Deus como a beleza e a grandeza da sua multiforme perfeição.

Digo “multiforme perfeição”, porque a Bíblia diz que aspectos específicos do ser de Deus contêm glória. Por exemplo, lemos sobre a “gloriosa graça” (Efésios 1:6) e “a glória do seu poder” (2 Tessalonicenses 1:9). O próprio Deus é glorioso, pois ele é a perfeita união de todas as suas multiformes e gloriosas perfeições.

Mas esta definição deve ser qualificada. A Bíblia também fala da glória de Deus antes de ser revelada na criação. Por exemplo, Jesus orou: “e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (João 17:5). Portanto, quero sugerir a seguinte definição: A glória de Deus é o esplendor externo da beleza intrínseca e grandeza da sua multiforme perfeição.

Estou ciente de que palavras apontam para uma definição muito pobre. Eu substituí uma palavra inadequada-glória-por duas palavras inadequadas – beleza e grandeza. No entanto, Deus se revelou a nós em palavras como “a glória de Deus”. Portanto, elas não são palavras sem sentido.

Devemos constantemente nos lembrar de que estamos falando de uma glória que está além de qualquer comparação na criação. “A glória de Deus” é como designamos a beleza e a grandeza infinita da Pessoa que existia antes de qualquer coisa. Essa beleza e grandeza existem sem origem, sem comparação, sem analogia, sem serem julgadas por qualquer critério externo. A glória de Deus é definitiva, o padrão absolutamente original de grandeza e beleza. Toda a grandeza e beleza criadas vêm dela e aponta para ela, mas não podem reproduzi-la de forma adequada e em sua abrangência.

“A glória de Deus” é uma forma de dizer que há uma realidade objetiva e absoluta para a qual apontam todas as maravilhas, respeito, veneração, louvor, honra, elogio e adoração dos seres humanos. Nós fomos feitos para encontrar o nosso mais profundo prazer em admirar o infinitamente admirável – a glória de Deus. Essa glória não é a projeção psicológica do desejo humano insatisfeito sobre a realidade. Pelo contrário, o desejo inconsolável do ser humano é a evidência de que fomos feitos para a glória de Deus.

Quão central é a glória de Deus?

A glória de Deus é o objetivo de todas as coisas (1 Coríntios 10:31;Isaías 43:6-7). A grande missão da Igreja é declarar a glória de Deus entre as nações. “Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas”. (Salmo 96:1-3; Ezequiel 39:21; Isaías 66:18-19).

Qual é a nossa esperança?

Nossa máxima esperança é ver a glória de Deus. “E gloriamo-nos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5:2). Deus irá “vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória” (Judas 24). Ele irá “conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão” (Romanos 9:23). Jesus, em toda a sua pessoa e obra, é a encarnação e revelação máxima da glória de Deus (João 17:24; Hebreus 1:3).

Além disso, não somente veremos a glória de Deus, mas também teremos participação, em algum sentido, em sua glória. “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada” (1 Pedro 5:1). “Aos que justificou, a esses também glorificou” (Romanos 8:30). A esperança que é verdadeiramente conhecida e estimada tem um efeito decisivo sobre os nossos valores, escolhas e ações hoje.

Valorizando a Glória de Deus

Conheça a glória de Deus. Estude a glória de Deus, a glória de Cristo. Estude sua alma. Conheça as glórias pelas quais você é seduzido e porque você valoriza glórias que não são a glória de Deus.

Estude a sua própria alma para saber como fazer as glórias do mundo desmoronarem como Dagom, em pedaços miseráveis, ??no chão dos templos do mundo (1 Samuel 5:4). Tenha fome de ver e compartilhar mais da glória de Cristo, a imagem de Deus.

 

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John Piper  AutorJohn Piper

John Piper é um dos ministros e autores cristãos mais proeminentes e atuantes dos dias atuais, atingindo com suas publicações e mensagens…

SÉRIE 5 SOLAS: Sola Christus!

Publicado: 24 de outubro de 2017 em Sem categoria

Comemoramos neste mês os 500 da reforma protestante e o nosso blog compartilhará, a cada semana, um tema daquilo que praticamente é o resumo da Teologia Protestante que é as 5 Solas. Essas serão retiradas do blog Voltemos ao Evangelho: http://voltemosaoevangelho.com/blog/2013/09/sola-scriptura-serie-5-solas-15/

Nesta segunda etapa ver-se-á o SOLA CHRISTUS!

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A teologia reformada afirma que a Escritura e sua doutrina sobre a graça e fé enfatizam que a salvação é solus Christus, “somente por Cristo”, isto é, Cristo é o único Salvador (Atos 4:12). B.B. Warfield escreveu: “O poder salvador da fé reside, portanto, não em si mesma, mas repousa no Salvador Todo Poderoso”.

A centralidade de Cristo é o fundamento da fé protestante. Martinho Lutero disse que Jesus Cristo é o “centro e a circunferência da Bíblia” — isso significa que quem ele é e o que ele fez em sua morte e ressurreição são o conteúdo fundamental da Escritura. Ulrich Zwingli disse: “Cristo é o Cabeça de todos os crentes, os quais são o seu corpo e, sem ele, o corpo está morto”.

Sem Cristo, nada podemos fazer; nele, podemos fazer todas as coisas (João 15:5; Filipenses 4:13). Somente Cristo pode trazer salvação. Paulo deixa claro em Romanos 1-2 que, embora haja uma auto-manifestação de Deus além da sua obra salvadora em Cristo, nenhuma porção de teologia natural pode unir Deus e o homem. A união com Cristo é o único caminho da salvação.

Nós precisamos urgentemente ouvir solus Christus em nossos dias de teologia pluralista. Muitas pessoas hoje questionam a crença de que a salvação é somente pela fé em Cristo. Como Carl Braaten diz, eles “estão voltando à velha e falida forma de abordagem cristológica do século XIX, do liberalismo protestante, e chamando-a de “nova”, quando, na verdade, é pouco mais que uma “Jesusologia” superficial”. O resultado final é que, atualmente, muitas pessoas, como H.R. Niebuhr disse em sua famosa frase a respeito do liberalismo — proclamam e adoram “um  Deus sem ira, o qual trouxe homens sem pecado para um reino sem julgamento por meio de ministrações de um Cristo sem a cruz”.

Nossos antepassados reformados, aproveitando uma perspectiva que rastreia todo o caminho de volta aos escritos de Eusébio de Cesaréia, no século IV, acharam útil pensar a respeito de Cristo como Profeta, Sacerdote e Rei. A Confissão Batista de Londres de 1689, por exemplo, coloca isso da seguinte forma: “Cristo, e somente Cristo, está apto a ser o mediador entre Deus e o homem. Ele é o profeta, sacerdote e rei da igreja de Deus” (8.9). Observemos mais detalhadamente esses três ofícios.

Cristo, o Profeta

Cristo é o Profeta que precisamos para nos instruir nas coisas de Deus, a fim de curar a nossa cegueira e ignorância. O Catecismo de Heidelberg o chama de “nosso principal Profeta e Mestre, que nos revelou totalmente o conselho secreto e a vontade de Deus a respeito da nossa redenção” (A. 31). “O Senhor, teu Deus”, Moisés declarou em Deuteronômio 18:15, “te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás”. Ele é o Filho de Deus, e Deus exige que nós o escutemos (Mateus 17:5).

Como o Profeta, Jesus é o único que pode revelar o que Deus tem planejado na história “desde a fundação do mundo”, e que pode ensinar e manifestar o real significado das “escrituras dos profetas” (o Antigo Testamento, ver Romanos 16:25-26). Podemos esperar progredir em nossa vida cristã apenas se dermos ouvidos à sua instrução e ensino.

Cristo, o Sacerdote

Cristo é também o Sacerdote—nosso extremamente necessário Sumo Sacerdote que, como diz o Catecismo de Heidelberg: “pelo sacrifício de Seu corpo, nos redimiu, e faz contínua intercessão junto ao Pai por nós” (A. 31). Nas palavras da Confissão Batista de Londres de 1689 “por causa do nosso afastamento de Deus e da imperfeição de nossos melhores serviços, precisamos de seu ofício sacerdotal para nos reconciliar com Deus e nos tornar aceitáveis por ele” (8.10).

A salvação está somente em Jesus Cristo, porque há duas condições que, não importa o quanto nos esforcemos, nunca poderemos satisfazer. No entanto, elas devem ser cumpridas se estamos para ser salvos. A primeira é satisfazer a justiça de Deus pela obediência à lei. A segunda é pagar o preço de nossos pecados. Nós não podemos cumprir nenhuma dessas condições, mas Cristo as cumpriu perfeitamente. Romanos 5:19 diz: “ por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos”. Romanos 5:10 diz: “nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho”. Não há outra maneira de entrar na presença de Deus a não ser por meio de Cristo somente.

O sacrifício de Jesus ocorreu apenas uma vez, mas ele ainda continua sendo nosso grande Sumo Sacerdote, aquele através do qual toda a oração e louvor são feitos aceitáveis a Deus. Nos lugares celestiais, ele continua sendo nosso constante Intercessor e Advogado (Romanos 8:34; 1 João 2:1). Não é de se admirar, então, que Paulo diz que a glória deve ser dada a Deus “por meio de Jesus Cristo pelos séculos dos séculos” (Romanos 16:27). O gozo de achegarmo-nos a Deus pode crescer apenas por uma confiança profunda nele como nosso sacrifício e intercessor.

Cristo, o Rei

Finalmente, Cristo é o Rei, que reina sobre todas as coisas. Ele reina sobre sua Igreja por meio de seu Espírito Santo (Atos 2:30-33). Ele soberanamente dá o arrependimento ao impenitente e concede perdão ao culpado (Atos 5:31). Cristo é “o nosso Rei eterno que nos governa por sua Palavra e Espírito, e que defende e preserva-nos no gozo da salvação que ele adquiriu para nós” (O Catecismo de Heidelberg, P&R.31). Como o Herdeiro real da nova criação, ele nos levará a um reino de eterna luz e amor.

Neste sentido, podemos concordar com João Calvino quando ele diz: “Nós podemos passar pacientemente por esta vida com sua miséria, frieza, desprezo, injúrias e outros problemas—satisfeitos com uma coisa: que o nosso Rei nunca nos deixará desamparados, mas suprirá as nossas necessidades, até que, ao terminar nossa luta, sejamos chamados para o triunfo”. Podemos crescer na vida cristã apenas se vivermos obedientemente sob o domínio de Cristo e pelo seu poder.

Se você é um filho de Deus, Cristo em seu tríplice ofício como Profeta, Sacerdote e Rei significará tudo para você. Você ama solus Christus? Você o ama em sua pessoa, ofícios, naturezas e benefícios? Ele é o seu Profeta para ensinar-lhe; o seu Sacerdote para sacrificar e interceder por você e lhe abençoar, e o seu Rei para governá-lo e guiá-lo?

Depois de uma execução empolgante da Nona Sinfonia de Beethoven, o famoso maestro italiano Arturo Toscanini disse à orquestra: “Eu não sou nada. Você não é nada. Beethoven é tudo”. Se Toscanini pode dizer isso sobre um compositor brilhante, mas que está morto, quanto mais os cristãos devem dizer o mesmo sobre o Salvador que vive, o qual, no que diz respeito à nossa salvação, é o compositor, músico e até mesmo a própria bela música.

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Joel Beeke

AutorJoel Beeke

Joel Beeke é presidente e professor de teologia sistemática no Puritan Reformed Theological Seminary (EUA) e pastor da Heritage Netherlands Reformed…

SÉRIE 5 SOLAS: Sola Fide!

Publicado: 17 de outubro de 2017 em Sem categoria

Comemoramos neste mês os 500 da reforma protestante e o nosso blog compartilhará, a cada semana, um tema daquilo que praticamente é o resumo da Teologia Protestante que é as 5 Solas. Essas serão retiradas do blog Voltemos ao Evangelho: http://voltemosaoevangelho.com/blog/2013/09/sola-scriptura-serie-5-solas-15/

Nesta segunda etapa ver-se-á o SOLA FIDE!

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Em 1647, um grupo de pastores e teólogos reformados reunidos na Abadia de Westminster, em Londres, elaborou um conjunto de documentos que hoje conhecemos como os Padrões de Westminster, que incluem a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo. Os teólogos procuraram sistematizar o ensino reformado a fim de criar uma igreja Reformada unificada nas Ilhas Britânicas. Na pergunta e resposta 33 do Breve Catecismo, eles resumem um dos principais pilares da tradição reformada:

O que é a justificação? Justificação é um ato da livre graça de Deus, através da qual ele perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos diante de si, somente pela justiça de Cristo a nós imputada e recebida pela fé somente.

Incluída nesta breve declaração está a ideia de que os pecadores são justificados sola fide – somente pela fé. Mas o que significa sola fide? Antes de mergulhar em seu significado, um pouco de contexto histórico é essencial para entender a sua importância. Uma pessoa só pode apreciar verdadeiramente uma luz brilhante contra o pano de fundo da escuridão.

Um Pano de Fundo das Trevas

Quando Martinho Lutero pregou suas Noventa e Cinco Teses na porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, em 1517, demorou algum tempo para que as implicações da sua ação reverberassem ao longo da história. O fruto de seu trabalho emergiu em algumas confissões luteranas e reformadas, as quais afirmaram que os pecadores são declarados justos aos olhos de Deus, não com base em suas próprias boas obras, mas somente pela fé, somente em Cristo e pela graça de Deus somente – sola fide, solus Christus e sola gratia. A Igreja Católica Romana foi compelida a responder, e o fez no famoso Concílio de Trento, quando realizou uma série de pronunciamentos sobre a doutrina da justificação em sua sexta sessão, em 13 de janeiro de 1547.

Dentre os muitos pontos que Roma apresentou, vários deles reivindicações-chave, os principais foram: (1) que os pecadores são justificados pelo seu batismo, (2) que a justificação é pela fé em Cristo e pelas boas obras de uma pessoa, (3) que os pecadores não são justificados unicamente pela justiça imputada de Jesus Cristo, e (4) que uma pessoa pode perder sua posição de justificação. Todos esses pontos se fundem na seguinte declaração:

Se alguém disser que o pecador é justificado somente pela fé, ou seja, que não é necessária nenhuma outra forma de cooperação para que ele obtenha a graça da justificação e que, em nenhum sentido, é necessário que ele faça a preparação e seja eliminado por um movimento de sua própria vontade: seja anátema. (Canon IX)

A Igreja Católica Romana claramente condenou a sola fide – não confessou que os pecadores são justificados somente pela fé.

Uma Luz na Escuridão

Em contraste com esse pano de fundo, podemos apreciar como o Breve Catecismo define biblicamente a doutrina da justificação e explica o que é sola fide. Para Roma, os pecadores são justificados pela fé e obras. Sua doutrina da fé é introspectiva – uma pessoa deve olhar para dentro de suas próprias boas obras, a fim de ser justificado. O Breve Catecismo, por outro lado, argumenta que a fé é extrospectiva – os pecadores olham para fora de si, para a obra perfeita e completa de Cristo para a sua justificação. Mas o que, especificamente, os pecadores recebem somente pela fé?

O primeiro benefício da justificação é que Deus perdoa todos os nossos pecados passados, presentes e futuros. Os teólogos mencionam a citação que Paulo fez do Salmo 32: “Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto” (Romanos 4:7,  Salmo 32:1). O segundo benefício da justificação é a aceitação do pecador como justo aos olhos de Deus “apenas pela justiça de Cristo imputada a nós”. Ter o status de “justo” conferido a si mesmo é bastante surpreendente. Quando um juiz declara uma pessoa inocente, isso simplesmente significa que ele não é culpado de ter quebrado a lei. Mas, se um juiz declara uma pessoa justa, significa que não somente ela é inocente de violar a lei, mas também que ela cumpriu a exigência da lei. Tomemos como exemplo o roubo. Para uma pessoa ser justa nesse caso, ela deve abster-se de roubar. Mas, além disso, ela também deve proteger os bens dos outros. Ela deve atender as demandas negativas e positivas da lei contra o roubo. Por justificação, um pecador é aceito como justo, não por uma parte da lei, mas por toda a lei – cada mandamento, cada jota e til. Ele é contado como aquele que guardou todas as dimensões de toda a lei. De onde surge essa justiça?

A justiça, ou obediência, pertence a Cristo. Os teólogos citam duas passagens-chave das Escrituras para fundamentar a imputação, ou confirmação, da justiça de Cristo para o crente. Primeiro, eles citam 2 Coríntios 5:21:“Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”. De acordo com as Escrituras, Cristo era o Cordeiro imaculado, perfeito e sem pecado (1 Pedro 1:19; Hebreus 4:15). Ainda, Cristo carregou o pecado do seu povo – foi imputado a ele e ele o carregou. A maneira pela qual Cristo foi imputado com o nosso pecado para que ele pudesse suportar a maldição da lei (imputação) é a mesma maneira pela qual recebemos a perfeita obediência de Cristo – seu cumprimento de todas as exigências da lei. Os teólogos citam Romanos 5:19 para este efeito: “Porque, como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim, pela obediência de um só homem muitos serão constituídos justos” (versão do autor). A desobediência de Adão foi imputada a todos os que estão unidos a ele, e a obediência de Cristo, o último Adão, é imputada a todos aqueles unidos a Jesus (1 Coríntios. 15:45).

Nunca os dois devem se encontrar

Se já não estiver aparente, a visão dos teólogos de Westminster sobre a justificação é diametralmente oposta à visão da Igreja Católica Romana. Para Roma, a justificação do pecador é uma tentativa de alquimia doutrinária, tentando misturar as obras de Cristo com as do crente, a fim de produzir o ouro da justificação. A teologia reformada, por outro lado, sistematizada no Breve Catecismo Menor e refletindo o ensino das Escrituras, repousa a justificação do pecador somente sobre a obra de Cristo. O único meio pelo qual a perfeita obra de Cristo é recebida é pela fé somente – sola fide. Nós não temos outra embaixada de paz para encontrar abrigo da justa ira de Deus, a não ser na perfeita justiça e sofrimento de Cristo, e não há outra ponte entre o homem e Cristo, somente a fé.

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J. V. Fesko

AutorJ. V. Fesko

Dr. J. V. Fesko é reitor acadêmico e professor de Teologia Sistemática e Teologia Histórica no Westminster Seminary California. Ele…

SÉRIE 5 SOLAS: Sola Gratia!

Publicado: 14 de outubro de 2017 em Sem categoria

Comemoramos neste mês os 500 da reforma protestante e o nosso blog compartilhará, a cada semana, um tema daquilo que praticamente é o resumo da Teologia Protestante que é as 5 Solas. Essas serão retiradas do blog Voltemos ao Evangelho: http://voltemosaoevangelho.com/blog/2013/09/sola-scriptura-serie-5-solas-15/

Nesta segunda etapa ver-se-á o SOLA GRATIA!

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“Maravilhosa Graça! Quão doce o som que salvou um miserável como eu!”; “Maravilhosa graça do nosso amado Senhor, a graça que excede o nosso pecado e a nossa culpa”. “Maravilhosa graça de Jesus, maior do que todos os meus pecados, como a minha língua deveria descrevê-lo, por onde deveria começar o seu louvor?”.

Os cristãos adoram cantar sobre a graça salvadora de Deus – e com razão. João nos diz que de Jesus “todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça” (João 1:16). Muitas das cartas do Novo Testamento começam e terminam com os escritores expressando seu desejo de que a graça de Jesus estivesse com o seu povo. As últimas palavras da Bíblia são: “A graça do Senhor Jesus seja com todos. Amém” (Apocalipse 22:21).

Os reformadores entenderam a importância da graça de Deus para o ensino bíblico sobre a salvação. De fato, um dos lemas que vieram a definir o ensino da Reforma era sola gratia, que é o latim para “somente pela graça”. Os cristãos são salvos somente pela graça de Deus.

Entre os protestantes, existe uma conhecida incompreensão e uma distorção do ensino da Igreja Católica Romana sobre a graça. Às vezes é dito: “Roma ensina que somos salvos pelas obras, mas os protestantes ensinam que somos salvos pela graça”. Esta declaração, mesmo sendo comum, é uma calúnia contra a Igreja Católica Romana. Roma não ensina que alguém é salvo pelas obras à parte da graça de Deus. Ela, de fato, ensina que uma pessoa é salva pela graça de Deus.

A que, então, Roma objetou no ensino dos reformadores? Onde está a linha que diferencia Roma da Reforma? Encontra-se em uma única palavra – sola (“somente”). Os reformadores sustentavam que o pecador é salvo pela graça de Deus, o seu favor imerecido, somente. Essa doutrina significa que nada que o pecador fizer pode trazer-lhe o mérito para obter a graça de Deus, e que o pecador não coopera com Deus, a fim de merecer a sua salvação. A salvação, do começo ao fim, é o dom soberano de Deus para os indignos e não merecedores. Conforme Paulo escreveu aos cristãos de Corinto que estavam inclinados a vangloriar-se: “Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1 Coríntios. 4:7). Ninguém pode estar diante de Deus e dizer: “Olhe para mim e veja o que eu fiz!” Deus não é devedor de ninguém, nem mesmo em matéria de salvação (Romanos 11:35).

Uma passagem da Escritura na qual a doutrina da salvação somente pela graça brilha é Efésios 2:1-10. Paulo escreveu aos Efésios, depois de ter ministrado entre eles por cerca de três anos (Atos 20:31). Está claro a partir do livro de Atos dos Apóstolos que Paulo dedicou-se profundamente a pregar e ensinar a Palavra de Deus para eles (19:8-10, 20:20-21).

A carta aos Efésios nos dá um vislumbre do banquete de ensino que Paulo havia colocado diante daquela igreja. No primeiro capítulo, Paulo leva-nos para os “lugares celestiais” (1:3). Ele nos mostra o plano do Pai para salvar os pecadores através da obra de seu Filho, uma obra que é aplicada e garantida pelo Espírito. Este plano é um plano generoso – o Pai “nos abençoou em Cristo com todas as bênçãos espirituais” (v. 3). Acima de tudo, Paulo enfatiza como esse plano de redenção redunda em louvor da gloriosa graça de Deus (vv. 6, 12, 14).

Depois de uma pausa para agradecer a Deus e interceder pelos Efésios, Paulo aplica as realidades celestiais de 1:3-14 às nossas vidas cristãs individuais em 2:1-10. Ele destaca duas vezes o fato de que “pela graça sois salvos” (2:5, 8). Como é a graça de Deus evidente na salvação? Nós vemos a graça de Deus em evidência, Paulo diz, quando Deus faz com que o morto viva em Cristo. Para apreciar plenamente a graça de Deus, vamos considerar a partir de Efésios 2:1-10 o que significa estar “morto” e o que significa estar “vivo”.

Quem são os “mortos”? Os Efésios estão incluídos. (“Vocês estavam mortos em… delitos e pecados…”, v.1). Inclui Paulo e seus companheiros judeus. (“Nós todos vivíamos nas paixões da nossa carne”, v. 3). De fato, inclui todo homem, mulher e criança em Adão. (“[Nós] éramos por natureza filhos da ira, como o resto da humanidade”, v.3). A palavra “mortos” inclui pessoas como você e eu.

O que significa estar “morto”? Paulo aponta para três coisas nesta passagem. Primeiramente, isso significa estar sob condenação. Antes de Cristo, estávamos “mortos nos delitos e pecados nos quais [nós] uma vez andávamos”. Deus disse a Adão em Gênesis 2, que a morte é a penalidade para o pecado. Quando violamos a lei de Deus, nós somos culpados perante este Deus santo, e responderemos perante a sua justiça. Em segundo lugar, estar morto significa que estávamos debaixo do jugo. Servíamos a três mestres: o mundo (“seguir o curso deste mundo”, 2:2), a carne (“todos nós vivíamos segundo as paixões da nossa carne, realizando os desejos do corpo e da mente”, 2:3), e o Diabo (“seguindo o príncipe do poder do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência”, 2:2). Em terceiro lugar, estar morto significa que estávamos sob a ira. Nós “éramos por natureza filhos da ira, como o resto da humanidade” (2:3). Estávamos justamente sujeitos ao descontentamento santo de Deus por causa do nosso pecado. Éramos assim “por natureza” – em outras palavras, nascemos nessa condição.

Muitos não aceitam esse ensinamento. Fora da igreja, muitos assumem que as pessoas são basicamente boas. Elas tendem a acreditar, pelo menos implicitamente, que se dermos às pessoas uma educação adequada, os exemplos ou leis, então eles vão seguir o caminho certo. Leis justas, exemplos nobres e educação adequada são inestimáveis, mas são impotentes para mudar um coração comprometido com sua rebelião contra Deus. Dentro da igreja, muitos já disseram e ainda dizem que as pessoas estão doentes, e até mesmo desesperadamente doentes. No entanto, ainda diz-se a esses doentes que eles têm os recursos necessários para responder e cooperar com a graça de Deus. Mas Paulo não diz que estamos doentes. Ele diz que, longe de Cristo, nós estamos mortos. Espiritualmente falando, somos cadáveres no chão, sem Jesus. Não podemos nos aproximar de Deus, assim como um cadáver não pode reunir forças para sair de seu túmulo. Assim é o quão ruim estamos quando estamos longe de Cristo.

Felizmente, Paulo não termina por aí. Começando no versículo 4, Paulo se volta de nós para Deus, do mal que fizemos para o bem que Deus está fazendo em Cristo. Ele destaca três coisas sobre a graça de Deus no resto desta passagem:

Primeiro, ele nos aponta para a obra de Deus nos versículos 5-6: “Deus nos deu vida juntamente com Cristo – pela graça sois salvos – e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar com ele nos lugares celestiais em Cristo Jesus”. Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos e o fez assentar-se à sua direita (1:18-20), e ele nos fez algo incrível em nossa união com Cristo. Deus, Paulo disse, fez os mortos viverem. Isso é o que evoca a exclamação de Paulo: “Pela graça sois salvos” (2:5).

Em segundo lugar, Paulo nos aponta para a motivação de Deus. Por que Deus fez o morto reviver? Não foi por causa de nossas obras, Paulo diz no versículo 9, nem as obras que fizemos antes de nos tornarmos cristãos, nem as obras que temos feito depois que nos tornamos cristãos. Caso contrário, poderíamos ter motivo para “nos gloriar” (v. 9). Em vez disso, Paulo diz, Deus nos deu vida por causa de sua “misericórdia”, de seu “grande amor com que nos amou” (v. 4). Paulo sai do seu caminho para incutir em nós que o próprio amor e a misericórdia de Deus são a fonte da nossa salvação.

Em terceiro lugar, Paulo nos aponta para o propósito de Deus. Com que propósito Deus fez o morto reviver? Paulo diz no versículo 7, foi para que possamos colocar em exposição, tanto agora como na eternidade, as “riquezas imensuráveis ??da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus”. Como podemos fazer isso? Através da exposição em nossas vidas da obra prima de nosso Criador e Redentor – fomos “criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (v. 10).

Nós somos salvos, então, sola gratia – somente pela graça de Deus. Longe de levar-nos a abraçar uma vida de libertinagem e imprudência moral, a graça de Deus no evangelho nos leva a buscarmos uma vida de consagração e santidade. Por que isso acontece? O grande compositor de hinos, Isaac Watts, capturou bem o ponto de Paulo quando escreveu em seu hino “Quando eu vejo a maravilhosa cruz”: “Se toda a criação me pertencesse, ainda assim seria um presente muito pequeno, se comparado ao amor tão incrível, tão divino, que exigiria a minha alma, a minha vida, o meu tudo”. Pense nisso da próxima vez que cantar sobre a graça de Deus.

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Guy Prentiss Waters

Dr. Guy Prentiss Waters é professor de Novo Testamento no Reformed Theological Seminary em Jackson, Mississippi. Ele é autor do livro How Jesus Runs the Church.

SÉRIE 5 SOLAS: Sola Scriptura!

Publicado: 4 de outubro de 2017 em Sem categoria

Comemoramos neste mês os 500 da reforma protestante e o nosso blog compartilhará, a cada semana, um tema daquilo que praticamente é o resumo da Teologia Protestante que é as 5 Solas. Essas serão retiradas do blog Voltemos ao Evangelho: http://voltemosaoevangelho.com/blog/2013/09/sola-scriptura-serie-5-solas-15/

Nesta primeira etapa ver-se-á o SOLA SCRIPTURA

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Vivemos em um mundo cheio de reivindicações de verdades concorrentes. Todos os dias, somos bombardeados com declarações de que uma coisa é verdadeira e a outra, falsa. Dizem-nos no que acreditar e no que não acreditar. Pedem-nos que nos comportemos de um jeito ao invés de outro. Em sua coluna mensal “O que eu sei com certeza”, Oprah Winfrey nos diz sobre como lidar com as nossas vidas e relacionamentos. A página editorial do New York Times nos diz regularmente qual abordagem devemos usar nas grandes questões morais, jurídicas ou de políticas públicas de nossos dias. Richard Dawkins, o ateu e evolucionista britânico, nos diz como pensar a respeito de nossas origens históricas e nosso lugar no universo.

Como filtraremos todas essas alegações? Como as pessoas sabem o que pensar sobre relacionamentos, moralidade, Deus, origem do universo e muitas outras questões importantes? Para responder a essas perguntas, as pessoas precisam de algum tipo de norma, padrão ou critério ao qual possam recorrer. Em outras palavras, precisamos de uma autoridade máxima. É claro que todo mundo tem algum tipo de norma suprema à qual recorrer, quer estejam cientes ou não do que essa norma venha a ser. Algumas pessoas recorrem à razão e à lógica para julgar essas alegações de verdade concorrentes. Outras recorrem ao senso de experiência. Outros recorrem a si mesmos e ao seu próprio senso subjetivo das coisas. Embora haja alguma verdade em cada uma dessas abordagens, os cristãos têm historicamente rejeitado todas elas como o padrão definitivo para o conhecimento. Em vez disso, o povo de Deus tem afirmado universalmente que há apenas uma coisa que pode legitimamente funcionar como o padrão supremo: a Palavra de Deus. Não pode haver nenhuma autoridade maior que o próprio Deus.

É claro que não somos a primeira geração de pessoas a enfrentar o desafio das reivindicações de verdades concorrentes. Na verdade, Adão e Eva enfrentaram um dilema no início. Deus havia dito claramente a eles: “Certamente morrerás”, se comessem da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:17). Por outro lado, a Serpente disse o oposto a eles: “É certo que não morrereis!” (3:4). Como Adão e Eva deveriam ter julgado essas alegações discordantes? Pelo empirismo? Pelo racionalismo? Através daquilo que parecia certo para eles? Não, havia apenas um padrão ao qual eles deveriam ter recorrido para tomar essa decisão: a palavra que Deus havia falado a eles. Infelizmente, não foi isso o que aconteceu. Em vez de olhar para a revelação de Deus, Eva decidiu investigar ainda mais as coisas por si mesma: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos… tomou-lhe do fruto e comeu” (3:6). Não se engane, a queda não foi apenas uma questão de Adão e Eva terem comido o fruto. Na sua essência, a queda tratou-se de o povo de Deus ter rejeitado a Palavra de Deus como o padrão máximo para toda a vida.

Mas se a Palavra de Deus é o padrão máximo para toda a vida, a próxima pergunta é crucial: aonde iremos para conseguir a Palavra de Deus? Onde ela pode ser encontrada? Esta questão, é claro, nos leva a um dos debates centrais da Reforma Protestante. Ao mesmo tempo que as autoridades da Igreja Católica Romana concordavam que a Palavra de Deus era o padrão máximo para toda a vida e doutrina, eles acreditavam que essa palavra podia ser encontrada em locais fora das Escrituras. Roma reivindicou uma estrutura de autoridade de três partes, que incluía a Escritura, a tradição e o Magistério. O componente principal desta estrutura de autoridade era o próprio Magistério, que é o magistério oficial da Igreja Católica Romana, manifestado principalmente no papa. Porque o papa era considerado o sucessor do apóstolo Pedro, seus pronunciamentos oficiais (ex cathedra) eram considerados como as palavras do próprio Deus.

Foi neste ponto que os Reformadores mantiveram-se firmes. Apesar de reconhecerem que Deus havia entregado sua Palavra ao seu povo de várias maneiras antes da vinda de Cristo (Hebreus 1:1), eles argumentaram que não devíamos mais aguardar a revelação contínua, agora que Deus havia falado finalmente através do seu Filho (v. 2). A Escritura é clara quanto ao dom apostólico ter sido projetado para executar uma tarefa única e histórico-redentiva: estabelecer as bases da igreja (Efésios 2:20). A atividade de estabelecimento da fundação realizada pelos Apóstolos consistia principalmente em dar à igreja um depósito de ensino autorizado que testemunhasse a grande obra redentora de Cristo. Assim, os escritos do Novo Testamento, que são a personificação permanente do ensino apostólico, devem ser vistos como a última parcela da revelação de Deus para o seu povo. Esses escritos, juntamente com o Antigo Testamento, são os únicos que são corretamente considerados a Palavra de Deus.

Esta convicção de sola Scriptura – somente as Escrituras são a Palavra de Deus e, portanto, a única regra infalível para a vida e doutrina – fornecia o combustível necessário para inflamar a Reforma. Na verdade, foi considerada como a “causa formal” da Reforma (considerando que sola fide, ou “somente a fé”, foi considerada como a “causa material”). Os pontos de vista desta doutrina são personificados no famoso discurso de Martinho Lutero na Dieta de Worms (1521), depois que ele foi convidado a retratar os seus ensinamentos:

A menos que possa ser refutado e convencido pelo testemunho da Escritura e por claros argumentos (visto que não creio no papa, nem nos concílios; é evidente que todos eles frequentemente erram e se contradizem); estou conquistado pela Santa Escritura citada por mim, minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Não posso e não me retratarei, pois é inseguro e perigoso fazer algo contra a consciência…Que Deus me ajude. Amém!

Para Lutero, as Escrituras, e somente as Escrituras, eram o árbitro máximo do que devemos acreditar.

Claro que, como muitas convicções cristãs fundamentais, a doutrina da Sola Scriptura tem sido mal-entendida e mal-aplicada. Infelizmente, alguns têm usado sola Scriptura como justificativa para um tipo de individualismo “eu, Deus e a Bíblia”, onde a igreja não tem nenhuma autoridade real, e a história da igreja não é considerada ao interpretar e aplicar a Escritura. Assim sendo, muitas igrejas hoje são quase “ahistóricas” – separadas inteiramente das ricas tradições, credos e confissões da igreja. Eles entendem erroneamente que sola Scripturasignifica que a Bíblia é a única autoridade em vez de compreender que isso significa que a Bíblia é a única autoridade infalível. Ironicamente, tal abordagem individualista na verdade enfraquece a própria doutrina que a sola Scriptura pretende proteger. Ao enfatizar a autonomia do crente, fica-se apenas com conclusões particulares, subjetivas sobre o que a Bíblia quer dizer. Não é tanto a autoridade das Escrituras que é valorizada, mas a autoridade do indivíduo.

Os Reformadores não teriam reconhecido tal distorção como a doutrina da sola Scriptura em que criam. Pelo contrário, eles estavam bastante dispostos ??a confiar nos pais da igreja, nos conselhos da igreja e nos credos e confissões da igreja. Tal embasamento histórico foi encarado não apenas como um meio para manter a ortodoxia, mas também como um meio para manter a humildade. Ao contrário da percepção popular, os Reformadores não se viam como se estivessem trazendo algo novo. Em vez disso, eles entendiam que estavam recuperando algo muito antigo – algo que a igreja tinha acreditado inicialmente, mas que depois havia se torcido e distorcido. Os Reformadores não eram inovadores, mas escavadores.

Existem outros extremos contra os quais a doutrina da sola Scripturanos protege. Embora queiramos evitar a postura individualista e “ahistórica” de muitas igrejas hoje, a sola Scriptura também nos protege de elevarmos credos e confissões ou outros documentos humanos (ou ideias) ao nível das Escrituras. Devemos estar sempre atentos para não cometermos o mesmo erro de Roma, que abraçou o que poderíamos chamar de “tradicionalismo”, que tenta vincular as consciências dos cristãos a áreas que a Bíblia não vincula. Nesse sentido, a sola Scriptura é uma guardiã da liberdade cristã. Mas o maior perigo que enfrentamos quando tratamos da sola Scriptura é entendê-la de forma errada. O maior perigo é esquecê-la. Somos propensos a pensar nessa doutrina puramente em termos de debates do século XVI – apenas um vestígio das antigas batalhas entre católicos e protestantes, e irrelevantes para os dias de hoje. Mas, nos dias de hoje, a igreja protestante precisa dessa doutrina mais do que nunca. As lições da Reforma têm sido esquecidas em sua maioria e a igreja, mais uma vez, começou a confiar em autoridades supremas fora das Escrituras.

A fim de levar a igreja de volta à sola Scriptura, temos de perceber que não podemos fazer isso apenas através do ensino da doutrina em si (embora devamos fazer isso). Antes, a principal maneira para levar a igreja de volta é, de fato, pregando as Escrituras. Somente a Palavra de Deus tem o poder de transformar e reformar nossas igrejas. Portanto, não devemos apenas falar sobre a sola Scriptura, mas devemos demonstrá-la. E quando assim o fizermos, devemos pregar toda a Palavra de Deus – sem escolher as partes que preferimos ou pensar no que nossas congregações querem ouvir. Devemos pregar apenas a Palavra (sola Scriptura), e devemos pregar toda a Palavra (tota Scriptura). As duas doutrinas andam lado a lado. Quando elas são unidas, no poder do Espírito Santo, podemos ter a esperança de uma nova reforma.

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Michael Kruger
Autor: Dr. Michael J. Kruger é professor de Novo Testamento e Reitor no Reformed Theological Seminary em Charlotte, N.C. Ele é autor do livro Canon.

A Fé Prova a Existência de Deus

Publicado: 27 de setembro de 2017 em Sem categoria

ate

Por Robert M. Bowman, Jr.

Tradução: Elvis Brassaroto Aleixo

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Nesta primeira década do novo milênio, os cristãos evangélicos — que com dedicação estão “defendendo e confirmando o evangelho” (Fp 1.7) — têm diante de si uma tarefa assustadora. Embora mais de um bilhão de pessoas na terra professem ser cristãs, centenas de milhões delas são meramente cristãos nominais ou culturais, ou seguidores do liberalismo, ou de outras distorções, pouco ortodoxas , da fé cristã. Entretanto, no Ocidente, a maioria das pessoas nem sequer professa ser cristã. Pelo contrário, são seguidoras ou dos “deuses” do secularismo e do materialismo , ou das crenças alternativas, tais como: o islamismo e o movimento da Nova Era.

Os cristãos têm enfrentado, cada vez mais, esse desafio, e mergulhado no ministério da apologética — a defesa da fé cristã contra o desafio do pensamento dos incrédulos. Mas, ao agirem dessa forma, freqüentemente se acham incertos a respeito da melhor maneira de levar adiante a defesa da fé a que se propõem. A realidade é que, durante a maior parte do século XX, os cristãos evangélicos envolvidos na apologética ficaram divididos entre si no tocante às questões da metodologia apologética — os métodos ou estratégias usados para confrontar a incredulidade. Nesses últimos vinte e tantos anos, progressos relevantes têm sido alcançados no sentido de sanear essas divisões, mas ainda falta muita coisa para ser feita.

Nesta matéria, além de passarmos em revista a história dessas controvérsias a respeito da metodologia apologética, apresentaremos uma análise do estado da apologética evangélica atual. Nosso alvo não é oferecer um estudo exaustivo do assunto, mas familiarizar o leitor com as questões envolvidas. Este estudo deve revelar-se útil a todos os cristãos que desejam seriamente participar da apologética.

 

As origens da apologética atual

 

A apologética evangélica atual deve muita coisa aos esforços apologéticos de cristãos no decurso da história da Igreja. Por sua vez, a história da apologética cristã está estreitamente relacionada com a história da filosofia ocidental. Obviamente, passar em revista aqui uma história completa da apologética e da filosofia ocidental está fora de cogitação. Assim, faremos um breve resumo daquilo que é essencial e sugerimos aos leitores que não se privem de verificar as notas que utilizaremos para clarificar o significado de alguns termos técnicos, pois julgamos que tais notas são imprescindíveis para a compreensão da matéria.

 

Aurélio Agostinho

 

Para muitos, toda a apologétíca cristã remonta à mente fértil de Agostinho (354–430), teólogo mais influente da Igreja primitiva. Embora Agostinho fosse grandemente influenciado por Platão , como cristão rejeitava os conceitos pagãos que Platão tinha de Deus e, no decurso dos anos, seus pensamentos ficaram progressivamente mais livres do platonismo. Sustentava que, a fim de conhecermos e entendermos a verdade, devemos, primeiramente, crer na revelação divina, ter fé nela. Mas, ao mesmo tempo, afirmava que a revelação divina vem a nós numa forma racional ou inteligível, de modo que o nosso raciocínio é uma condição prévia para que possamos receber a revelação. Agostinho considerava a criação, os milagres e as profecias cumpridas como evidências em favor da veracidade do cristianismo. Entretanto, sua abordagem apologética principal era argumentar que a existência do Deus trino e uno revelado na Bíblia e proclamada pela Igreja era o fundamento de toda a verdade e moralidade, e que o conhecimento a respeito de Deus é percebido pela iluminação divina.

A partir do pensamento dinâmico e diversificado de Agostinho, é possível enfatizar dois aspectos diferentes. O primeiro deles é a ênfase que atribui à fé que antecede, mediante a iluminação, o entendimento e o conhecimento. Esse é, sem dúvida alguma, o aspecto mais destacado da abordagem de Agostinho na apologética, e essa ênfase pode servir de base para uma apologética que nega a possibilidade de um não-cristão ir caminhando sozinho, por seu próprio raciocínio, até a fé cristã. Se houvesse alguma “prova” tradicional da existência de Deus na apologética de Agostinho, esta seria o “argumento ontológico”, posteriormente formalizado por Anselmo (1033–1109). O argumento ontológico observa que Deus é maior que todos os seres concebidos (e tudo o que se possa imaginar), simplesmente porque existe na mente do homem um conhecimento básico da existência de Deus. Como pensar que Deus não existe sem a pré-suposição de sua existência? Ou seja, para conceber a idéia de que Deus não existe, antes, é lógico conceber a idéia de que Ele existe.

O segundo aspecto da abordagem apologética de Agostinho está relacionado ao fato de que o raciocínio é, de alguma forma, anterior à fé. Ele sustentava que a revelação dirigia-se ao raciocínio humano para que a fé fosse percebida. Apelava, também, à existência e às maravilhas da criação como evidências da existência de Deus. E aos milagres e às profecias cumpridas como evidências do cristianismo. É possível fazer desse aspecto a base de uma apologética que convida o não-cristão a raciocinar seu caminho até a fé cristã. Desa forma, não nos surpreende que apologistas de várias perspectivas tenham reivindicado Agostinho como um deles.

 

Tomás de Aquino

 

Tomás de Aquino (1224–1274) foi, sem dúvida, o filósofo mais importante do cristianismo medieval. Sua filosofia desfruta, ainda hoje, de respeito generalizado. Ele procurava, deliberadamente, desenvolver uma apologética baseada na filosofia aristoteliana e, ao mesmo tempo, abandonava a teologia de Aristóteles , tão pagã como a de Platão.

Embora Aquino tivesse profundo respeito pela teologia de Agostinho, abandonou, deliberadamente, a abordagem agostiniana da apologética. Em primeiro lugar, Aquino defendia a fé cristã por meio daquilo que agora é conhecido como a “teologia natural”. Enquanto Agostinho afirmava que obtemos conhecimento direto da existência de Deus mediante a iluminação divina, Aquino sustentava que podemos inferir a existência de Deus a partir do mundo natural. Rejeitava o argumento ontológico e desenvolveu vários argumentos em favor da existência de Deus a partir da existência e natureza do Universo. O raciocínio natural, portanto, pode averiguar a existência de Deus e de outras verdades teológicas básicas, que também se acham na revelação outorgada nas Escrituras. Outras verdades (tais como: a Trindade, a encarnação e a vinda do Espírito Santo) podem ser aprendidas somente na base da revelação bíblica. A veracidade dessa revelação pode ser comprovada ao raciocínio humano por meio dos argumentos tradicionais, como, por exemplo, os milagres, as profecias cumpridas e a influência positiva do cristianismo.

 

A Reforma Protestante

 

Os reformadores protestantes do século 16 argumentavam que a Igreja medieval perdera teologicamente o seu caminho e que, por conseguinte, precisava voltar aos ensinos da Bíblia e da Igreja primitiva. Tanto Martinho Lutero quanto João Calvino deviam muita coisa a Agostinho, e incitavam a Igreja à voltar a uma teologia agostiniana.

Calvino, em especial, proclamava que a teologia natural (de Aquino) devia ser abandonada. Embora reconhecesse que Deus se revela de modo geral a todas as pessoas, tanto na consciência quanto na natureza, argumentava que essa “revelação geral” (conforme os calvinistas posteriormente a chamavam) é suprimida por todos os homens, por causa do pecado. Logo, as revelações especiais da parte de Deus são necessárias para “arrancar” os homens da sua incredulidade. E, agora, essas revelações se acham exclusivamente na Bíblia. Além disso, a veracidade da Bíblia só pode ser reconhecida pela obra iluminadora do Espírito Santo. Isso,no entanto, não significa que os argumentos filosóficos e históricos não são sadios, mas apenas que não têm a capacidade de levar os incrédulos ao conhecimento de Deus.

 

O cristianismo se confronta com a incredulidade

 

Os pensadores cristãos, desde Agostinho até Calvino, geralmente se ocupavam mais em compreender a fé cristã que defendê-la. Nos tempos de Agostinho, o cristianismo já havia, em grande escala, vencido, tanto intelectual quanto politicamente na Europa e na África do Norte. Nos dias de Aquino, a ameaça principal ao cristianismo foi o islamismo. No período da Reforma, a confrontação intelectual principal foi entre os protestantes e os católicos. Na realida, e isso durante mais de mil anos, a necessidade da apologética para a confrontação da incredulidade ateísta foi mínima.

Tudo isso começou a alterar-se no século 17, com a ascensão do “deísmo”. O deísmo afirmava, originalmente, que a totalidade da fé cristã podia ser descoberta pela razão natural, mas se evoluiu até ser um movimento que sustentava que boa parte da crença cristã tradicional era contrária à razão. Pregava também a crença em um Criador, mas que não mantém envolvimento contínuo com o mundo e os eventos da história humana.

Depois, no século 18, foi a vez do ceticismo, doutrina filosófica daqueles que duvidam de tudo e afirmam que a verdade não existe e, caso existisse, o homem seria incapaz de conhecê-la. Essa corrente foi representada principalmente pelo filósofo escocês David Hume (1711–1776) e preparou o caminho para o Iluminismo, movimento que rejeitava todas as reivindicações da revelação divina e declarava a autonomia da razão humana. Hume era veementemente contra o argumento teleológico: argumento que raciocina com base na ordem e complexidade do mundo e no conceito de que ele (o mundo) fora elaborado por um Projetista inteligente. David Hume convenceu muitas pessoas de que este argumento e os argumentos baseados nos milagres eram infundados.

O filósofo iluminista Emanuel Kant (1724-1804) também alegava que podia refutar os argumentos cosmológico e ontológico em favor da existência de Deus. O argumento cosmológico pregava o seguinte: uma vez que cada coisa existente no Universo deve ter uma causa, deve haver um Deus, que é a última causa de tudo. Já o argumento ontológico já foi explicado no tópico em que abordamos a apologética de Agostinho.

Essas ondas sucessivas de ataques contra o cristianismo (deísmo e ceticismo) forçaram os cristãos ortodoxos a desenvolver respostas apologéticas. Semelhantes respostas, porém, variavam segundo as convicções teológicas dos apologistas e o conteúdo do ataque dos incrédulos. Por exemplo, os apologistas, na tradição teológica arminiana, procuravam enfrentar o deísmo e o ceticismo no próprio estado deles (por assim dizer), sempre refutando-os com a razão, somente. Daqui por diante, citaremos alguns apologistas importantes que, embora não sejam brasileiros, influenciaram, de alguma forma, a nossa apologética — uma vez que a nossa teologia se fundamenta, praticamente, em obras e pensamentos de outros teólogos, sobretudo, norte-americanos, ingleses e europeus.

Nesse campo, destacam-se o bispo Joseph Butler (1692–1752), cujo livro antideísta The Analogy of Religion [A analogia da religião], de 1736, ainda é amplamente debatido nos círculos eruditos, e William Paley (1743–1805), que empregou os argumentos de Butler para refutar Hume.

Um contemporâneo de Paley, Thomas Reid (1710–1796), calvinista escocês que desenvolveu uma filosofia chamada, agora, “O realismo do bom senso escocês”, também foi muito importante. A filosofia de Reid, assim como a de Paley, era, em grande parte, uma resposta ao seu compatriota Hume. Enquanto Hume estivera cético, não somente quanto aos milagres e à existência de Deus, mas também quanto à questão da causa e efeito, do certo e errado, Reid sustentara que o nosso conhecimento de todas essas coisas era simplesmente uma questão de bom senso. Segundo Reid, os filósofos que questionam essas crenças comuns deixaram a teoria obscurecer o que era muito claro. Nossos conhecimentos de causa e efeito e de certo e errado são evidentes em si mesmos. São um aspecto incorrigível da nossa constituição como seres criados por Deus, quer reconheçamos ou não a existência de Deus.

A epistemologia (teoria do conhecimento) de Reid afirmava que é possível argumentar em favor da veracidade da revelação cristã, com base nas pressuposições do “bom senso”, a respeito da natureza da verdade, da razão, da moralidade e do mundo. Chades Hodge (1797–1878), reconhecido teólogo calvinista, sustentava que, embora o raciocínio deva se submeter à revelação de Deus nas Escrituras, esse mesmo raciocínio deveria, primeiramente, discernir se as Escrituras são uma revelação da parte de Deus. Hodge também mantinha a validade dos argumentos tradicionais em favor da existência de Deus, e até mesmo recomendava as obras de Butler e Paley.

Nesse período, nos Países Baixos, o teólogo e político calvinista holandês Abraão Kuyper (1837-1920) desenvolveu a noção de uma “oposição” entre as respectivas mentalidades dos não-cristãos e dos cristãos. Essa oposição é tão nítida que os cristãos e os não-cristãos não podem compartilhar do mesmo ponto de vista nas questões de princípio fundamental. O não-cristão é incapaz de averiguar ou testar a revelação de Deus nas Escrituras, pois as Escrituras são a Palavra de Deus e, por conta disso, seus ensinos devem ser aceitos como primeiros princípios. Por outro lado, não se pode comprovar, diante do não-cristão, a veracidade do cristianismo tomando por base os argumentos filosóficos ou as evidências históricas, porque tais argumentos pressupõem os princípios cristãos. Não pode existir nenhum terreno comum ou neutro entre o cristão e o não-cristão. Logo, a apologética tradicional deve ser abandonada. Negativamente, os apologistas cristãos devem procurar desmascarar a raiz religiosa anticristã de todo o pensamento não-cristão. De modo positivo, devem procurar ser exemplos diante do mundo do seu cristianismo, reconstruindo a sociedade segundo os princípios bíblicos.

As idéias de Kuyper foram desenvolvidas até formarem uma filosofia completa por Herman Dooyeweerd (1894-1977). Segundo Dooyeweerd, a apologética tradicional, especialmente a de Tomás de Aquino, baseava-se na oposição antibíblica entre a natureza e a graça — ou seja, entre aquilo que o não-cristão pode saber pela sua natureza, mediante a razão somente, e aquilo que somente se pode saber mediante a revelação graciosa de Deus, por meio da fé. A tarefa da filosofia cristã era recomendar a visão de um mundo cristão e, ao mesmo tempo, fornecer uma base firme para o conhecimento e a ética.

 

Questões na apologética atual

 

O breve histórico já visto da apologética cristã tocou em várias questões que continuam provocando debates e até mesmo controvérsias entre os cristãos. Desejamos, no restante desta matéria, chamar a atenção para algumas dessas controvérsias e oferecer breves comentários a respeito.

 

A fílosofia e a apologética

 

Na lista das questões que precisam ser examinadas, o relacionamento entre a filosofia e a apologética ocupa um lugar de destaque. Todos os grandes apologistas da Era pré-Reforma foram fortemente influenciados por Platão ou Aristóteles. Embora os referidos apologistas rejeitassem a teologia grega, sustentavam que os cristãos podiam legitimamente construir a sua filosofia mediante o uso das categorias e argumentos que se acham ou em Platão (Agostinho) ou em Aristóteles (Aquino).

A tradição reformista de Lutero e de Calvino tem feito que os evangélicos, de modo geral, mas especialmente os calvinistas, não fundamentem suas filosofias ou apologéticas na filosofia grega. Enquanto o platonismo tem bem poucos defensores entre os evangélicos hoje, o aristotelianismo, por sua vez, conforme foi reconstituído por Aquino, tem um defensor importante na pessoa influente de Norman L. Geisler.

As contribuições de Aristóteles à ciência da lógica revelaram ser ferramentas úteis à análise de argumentos, e permanecem sendo indispensáveis ao apologista. No seu entusiasmo de abandonar todas as filosofias pagãs, alguns apologistas e filósofos cristãos nos têm convidado a abandonar a lógica como se esta fosse uma invenção de Aristóteles. Esse é um grande erro. A Bíblia toma por certo os princípios da lógica. E as verdades da teologia cristã, embora estejam além da nossa compreensão total, não são ilógicas.

Nenhum apologista cristão pode evitar fazer sua defesa do evangelho desconsiderando as filosofias daqueles que deseja alcançar. Declaramos isso por duas razões. Vejamos:

Primeira. Historicamente, ninguém jamais conseguiu evitar fazer assim. Agostinho empregava formas platônicas de pensamento para refutar os sistemas religiosos platônicos e defender a fé cristã. Aquino empregava categorias e argumentos aristotelianos para comprovar a superioridade do cristianismo quanto ao islamismo (que também apelava a Aristóteles em busca de apoio). Butler e Paley responderam à negaçao do sobrenatural pelos deístas com argumentos em favor do projeto sobrenatural do Universo baseado nas observações científicas da natureza. Mesmo se fosse possível ou desejável construir uma apologética cristã que estivesse totalmente livre da influência das filosofias daqueles dias, é duvidoso que alguém já tivesse chegado a fazer isso.

Segunda. Pela sua própria natureza, a apologética cristã precisa abraçar o pensamento não-cristão empregando os próprios termos e categorias desse pensamento. O objetivo da apologética é oferecer aos não-cristãos um desafio para que abandonem sua cosmovisão incrédula e abracem a fé cristã. Para que os apologistas alcancem todos os ouvintes, devem falar segundo os termos e categorias que eles (os ouvintes) possuem.

Em nossa cultura ocidental, há uma multidão de filosofias e cosmovisões com diferenças enormes entre si, e que as pessoas seguem. A apologética cristã deve responder adotando várias formas e empregando categorias diferentes, se deseja realmente comunicar-se com mais de um só grupo de não-cristãos.

Devemos estar preparados para mostrar ao “deísta” que o cristianismo é verdadeiramente racional enquanto desafiamos as pressuposições racionalistas do próprio deísta.

Devemos estar preparados para mostrar ao “empiricista” que os fatos estão todos do nosso lado e, ao mesmo tempo, levá-lo a perceber que a realidade consiste em mais coisas que as que se vêem.

Devemos, ainda, estar dispostos a argumentar diante do “pragmatista”, defendendo que o cristianismo é a única filosofia da vida que realmente funciona — especialmente (mas não exclusivamente) a longo prazo — e isso enquanto também insistimos em que a verdade não pode ser sacrificada no altar da conveniência.

Resumindo, devemos compreender os não-cristãos e isso significa correspondê-los nos seus próprios termos, oferecendo-lhes respostas na linguagem de sua própria filosofia, sem, no entanto, deixar de lhes mostrar que a filosofia que defendem é inadequada, segundo as categorias da própria filosofia em questão. É justamente este o desafio para a apologética cristã.

 

Comprovando a existência de Deus

 

Os argumentos em favor da existência de Deus caíram em tempos difíceis depois da crítica feita por Kant. As mais sólidas “provas cristãs”, ou seja, os argumentos baseados no desígnio (propósito), também ruíram depois de Darwin, porque o evolucionismo parecia remover qualquer necessidade de um Criador-Projetista.

Essa marcha dos acontecimentos levou os evangélicos de várias abordagens apologéticas diferentes a abandonarem as comprovaçoes cristãs. Alguns filósofos argumentam que a fé em Deus não precisa de nenhum apoio da parte de argumentos racionais, pois, na opinião deles, a fé em Deus é “básica pela natureza”.

Mas nem todos os evangélicos têm perdido a esperança nas provas cristãs tradicionais. Em 1957, Stuart Hackett escreveu uma defesa vigorosa das provas cristãs. Hackett procurou responder à crítica famosa de Kant nos seus próprios termos e concluiu que a crítica de Kant das provas teístas tinha falhas. William Lane Craig, o aluno mais famoso de Hackett, escreveu, posteriormente, várias obras em defesa do argumento cosmológico (já conceituado anteriormente). Craig desenvolve esse argumento, mas não faz isso apenas de maneira dedutiva e filosófica, usa também as evidências científicas indutivas que demonstram que o Universo é finito e que teve um começo. As críticas kantianas do argumento cosmológico tinham tomado por certo que o Universo fosse, talvez, de tamanho infinito e de idade infinita. As teorias da “grande explosão originária” do Universo têm feito que os cientistas abandonem aquela pressuposição. Conseqüentemente, o argumento cosmológico está sendo resgatado e considerado entre os filósofos e os cientistas.

O argumento com base no desígnio (propósito) também tem recebido uma apresentação nova nos anos recentes. A teoria neodarwiniana da evolução naturalista tem sofrido vários golpes. Por exemplo: os cenários naturalistas para a vida que se origina de uma “sopa” primordial na atmosfera e oceanos primitivos do planeta Terra têm revelado ser inviáveis. O estudo da genética tem demonstrado que os seres vivos são ordenados de modo inteligente. Essas descobertas, entre tantas outras, têm encorajado filósofos e cientistas a argumentarem, de novo, que a ordem intricada e a complexidade da natureza indicam um Criador inteligente.

Quanto a esse assunto, os pressuposicionalistas se acham numa posição difícil. Por um lado, concordam que Deus existe e que se pode achar provas da sua existência na existência e propósito (desígnio) do mundo (Em tese, são de acordo que os argumentos em favor da existência de Deus são forçosamente viáveis quando apelam a esse desígnio). Por outro lado, ficam preocupados com aspectos que parecem ser falhos nos argumentos, conforme são tradicionalmente formulados. E, segundo a visão que possuem, os argumentos tradicionais não somente são logicamente falhos (conforme Kant já argumentara), como também comprometem a posição cristã. Esse comprometimento é visto em dois aspectos.

Primeiro, os argumentos chegam à conclusão de que meramente existe um Deus de algum tipo, mas não que existe o Deus único e verdadeiro, o Deus trino e uno da Bíblia. As provas cristãs só revelam um conceito abstrato de Deus e não o Deus concreto e real. Trata-se do “Deus dos filósofos” ao invés do “Deus de Abraão, de lsaque e de Jacó”.

Segundo, os argumentos cristãos usualmente concluem apenas que Deus existe como probabilidade (Deus “provavelmente” existe) e não que a existência de Deus é absolutamente certa. Foi assim que aconteceu com os argumentos baseados no desígnio (propósito) e nos argumentos cosmológicos que apelam para as evidências científicas. Os pressuposicíonalistas insistem em que um Deus cuja existência é apenas provável não é adequado para merecer a confiança total.

O que diremos diante dessas preocupações? Em nossa opinião, esses dois tipos de argumentos estão exigindo demais da apologética. Vejamos a primeira objeção, de que as provas cristãs oferecem tão-somente um conceito abstrato de Deus.

O propósito dos argumentos apologéticos não é levar o não-cristão a um encontro pessoal com Deus. É o Espírito Santo quem faz isso. O propósito da apologética é oferecer razões para que as pessoas acreditem que Deus existe e que tem certos atributos. Além disso, nenhum argumento apologético tem a obrigação e a pretensão de comprovar tudo a respeito de Deus.

A segunda objeção (a da mera probabilidade) também está exigindo da apologética um resultado exagerado. Se alguma coisa é absolutamente verdadeira, também é “provavelmente” verdadeira — a diferença é que, neste último caso, a probabilidade é de cem por cento! Nem todas as provas cristãs são probabilísticas, mas as que são não deixam de ter o seu valor. O propósito da apologética não é forçar os intelectos humanos a aceitarem conclusões que hostilizam e rejeitam. Antes, o objetivo da apologética é desafiar a incredulidade por meio do oferecerecimento de razões sólidas para a fé.

 

A teoria e a prática da apologética

 

Tem sido quase universalmente tomado por certo que existe uma única teoria certa a respeito da apologética, e um só método, ou abordagem, certo quanto à prática da apologética. Na realidade, tem sido quase universalmente tomado por certo que, neste assunto, a teoria e a prática são a mesma coisa. Mas gostaríamos de questionar essas pressuposições. Em primeiro lugar, precisamos fazer uma distinção cuidadosa entre teorias a respeito da apologética e a prática da apologética. Ao estudo das teorias a respeito da apologética vamos chamar de “meta-apologética” (uma defesa da apologética), ao passo que quando citarmos a “apologética em si” nos referiremos à prática literal de defender a fé e desafiar a incredulidade.

Assim como um engenheiro estuda a física e a química, e as teorias a respeito da engenharia, como preparativo para a própria tarefa de construir coisas, assim também os apologistas devem estudar questões “meta-apologéticas” como preparativo para a tarefa de defender a fé. Uma coisa é debater entre nós mesmos as teorias a respeito dos efeitos do pecado sobre o raciocínio humano, outra coisa bem diferente é desafiar o raciocínio pecaminoso ou dar aos não-cristãos motivos para crerem que Deus existe. Embora a teoria deva informar a prática, ela, no entanto, não serve para substituir a prática. Assim como em todas as áreas da vida, podemos, também, aprender a apologética por meio da prática. É somente pelo enfrentamento com os não-cristãos em diálogo e desafios (levando-os a considerar as reivindicações de Cristo) que realmente aprendemos a apologética.

Ora, se a teoria é uma coisa, e a prática é outra coisa bem diferente, segue-se que nem todos os trabalhos de apologética devem ser realizados da mesma maneira. Já sugerimos que a apologética precisa oferecer tipos diferentes de respostas a pessoas com mentalidades filosóficas diferentes. Agora, queremos dar um passo além, e sugerir que as questões apologéticas dos tempos passados, embora ainda nos acompanhem, não são tão importantes quanto antes. Ainda existem em nosso meio, mas, atualmente, os maiores desafios à fé cristã no Ocidente são as falsas religiões, que incluem as religiões decididamente não-cristãs (tais como: o islamismo, o budismo, os cultos aos gurus hindus e o movimento da Nova Era) e outras versões heréticas do cristianismo (como, por exemplo, as testemunhas de Jeová, o mormonismo e o liberalismo, que tem tomado tanto o catolicismo quanto a maioria das denominações protestantes tradicionais). As metodologias apologéticas precisam ser diversificadas se pretendem ser eficazes e causar impacto sobre esses grupos diversos.

Não queremos dizer que vale-tudo. Algumas estratégias apologéticas são menos eficazes do que outras. Mas podemos aprender com todas elas. Além disso, algumas coisas estão constantes em todos os esforços apologéticos. Os não-cristãos, sejam quais forem as suas seitas religiosas, precisam ser confrontados com as mesmas verdades fundamentais.

Precisamos, porém, buscar a união na diversidade. Precisamos ter liberdade para desenvolver métodos complementares para a realização da apologética. Ao mesmo tempo, precisamos procurar combinar entre nós uma teoria compreensiva e unificada que forneça uma base para a prática da apologética. Até mesmo precisamos reconhecer e respeitar a verdade de que alguns crentes desenvolvem melhor a apologética na prática do que em sua teoria, e vice-versa. À medida que nós, os cristãos, com antecedentes diferentes e com uma variedade de dons, cooperarmos mutuamente e aprendermos uns com os outros, poderemos nos tomar mais eficazes em vencer os desafios da apologética nestes dias tão turbulentos.

Que o Senhor nos ajude nesta árdua tarefa!

 

Notas:

 

1 Liberalismo: neste contexto, qualquer movimento aberto a redefinir ou alterar as doutrinas e práticas tradicionais do cristianismo.

2 Ortodoxas: que se referem ao conjunto de doutrinas transmitidas pelas Escrituras bíblicas, como, por exemplo, a divindade de Deus, a Trindade e a autoridade das próprias Escrituras.

3 Secularismo: filosofia de vida conduzida sem crença, sem compromisso com Deus ou qualquer religião.

4 Materialismo: ensinamento de que a realidade última é a matéria, as coisas concretas, físicas e perceptíveis.

5 Filósofo grego (427 a.C.?-347 a.C.?). Um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. Suas teorias, chamadas de platonismo, concentram-se na distinção de dois mundos: o visível, sensível ou mundo dos reflexos, e o invisível, inteligível ou mundo das idéias. Discípulo de Sócrates, desenvolveu a teoria do método (ou dialética) e a teoria da reminiscência, segundo a qual o homem vive no mundo das idéias antes de sua encarnação e as contempla em seu estado puro. Após a morte de Sócrates, em 399 a.C., Platão deixa Atenas e viaja por muitos anos, passando pelo Egito e pela Itália. Na Sicília, é incumbido de ensinar filosofia ao rei Dionísio, que depois o expulsa de sua corte, vendendo-o como escravo. Volta a Atenas em 387 a.C. e funda a Academia, procurando reabilitar a filosofia de Sócrates. Não há consenso sobre a cronologia da obra de Platão. Seus livros mais conhecidos são Apologia de Sócrates, no qual retoma as teorias do filósofo sobre a idéia, dando-lhes novo sentido. O banquete, que expõe, de forma poética, a dialética do amor. E A república, que contém, em síntese, toda a sua filosofia, além de abordar teorias sobre a imortalidade da alma, a política e a dialética.

6 De um modo geral, referência a conceitos de sistemas éticos e religiosos não-cristãos.

7 Filósofo grego. Considerado o fundador da lógica, sua obra tem grande influência na teologia cristã no período da Idade Média. Nasceu em Estagira, antiga Macedônia, atual província da Grécia. Mudou-se para Atenas aos 17 anos. Freqüentou a Academia de Platão e foi discípulo durante vinte anos. Após a morte de Platão, passou três anos em Assos, na Ásia Menor. Depois, mudou-se para a Ilha de Lesbos. Em 343 a.C., é chamado para ser professor do príncipe Alexandre, da Macedônia. Quando Alexandre, o Grande, assumiu o trono, voltou a Atenas e, em 335 a.C., organizou sua própria escola, o Liceu. Ao contrário da Academia de Platão, interessada apenas na Matemática, o Liceu é voltado à pesquisa das ciências naturais. Então Aristóteles desenvolveu um sistema filosófico baseado numa concepção rigorosa do Universo. De orientação realista, defende a busca da realidade pela experiência. Para ele, deve-se procurar o conhecimento por meio do “intelecto ativo”, como chama a inteligência. Todas as suas obras se perderam, salvo a intitulada Constituição de Atenas. O pensamento aristotélico foi preservado por seus discípulos e atinge várias áreas do conhecimento, como lógica, ética, política, teologia, metafísica, poética, retórica, antropologia, psicologia, física e biologia. Seus escritos lógicos estão reunidos no livro Organon.

8 Teologia desenvolvida sem considerar as revelações das Escrituras. É construída por meio de observações e experiências.

9 Seguidores do pensamento de João Calvino. O termo calvinismo é aplicado particularmente à doutrina da predestinação, que afirma que Deus escolhe, soberanamente, alguns para a salvação não por causa de qualquer mérito ou mesmo de uma visão antecipada de sua conversão à fé, mas simplesmente por sua livre vontade e graça.

10 Referente à interpretação que contraria a doutrina calvinista da predestinação. O arminianismo afirma que a decisão de Deus em dar a salvação a determinadas pessoas e não a outras é baseada em seu conhecimento prévio daqueles que vão crer. Também inclui a idéia de que pessoas genuinamente regeneradas podem perder a salvação e que alguns realmente a perdem. Com frequência, o arminianismo apresenta uma interpretação mais suave da depravação humana do que o calvinismo.

11 Uma teoria da natureza do conhecimento, ou seja, como sabemos o que sabemos e como sabemos que as nossas crenças sao verdadeiras.

12 Dos muitos livros de Norman Geisler, recomendamos a Enciclopédia apologética, publicada pela Editora Vida, obra indispensável para os estudantes desta disciplina.

13 Pessoa adepta do empiricismo, teoria que prega que a veracidade de uma crença deve ser julgada exclusiva ou primariamente mediante um apelo aos fatos concretos adquiridos exclusivamente pela experiência sensória.

14 Pessoa adepta do pragmatismo, teoria que prega que a veracidade de uma crença deve ser julgada exclusiva ou primariamente pelos seus efeitos ou benefícios práticos.

15 No raciocínio dedutivo, a construção do argumento está baseada nas inferências necessárias das premissas (proposições).

16 No raciocínio indutivo, a construção do argumento avança dos fatos específicos a conclusões mais gerais que não se seguem necessariamente desses fatos, mas que são por eles apoiadas.

17 Adeptos do pressuposicionalismo, teorias que sustentam que a veracidade da Bíblia deve ser pressuposta pelo apologista. Para Gordon Clark, renomado teólogo, isso ocorre porque a Bíblia é a única fonte da verdade. Já o apologista Cornelius Van Til nega que toda a verdade deve ser obtida diretamente da Bíblia, antes, sustenta que todas as reivindicaçoes a esta verdade devem ser julgadas pelo padrão que se acha na Bíblia.

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Retirado de: http://www.icp.com.br/df79materia1.asp

Argumentos que se autorrefutam | Gregory Koukl

Publicado: 20 de setembro de 2017 em Sem categoria

Algumas ideias tendem a se autodestruírem ao se apresentarem. Sua tarefa é apenas ressaltar essa tendência, e então observar tal ideia se desmoronar lentamente.

Durante o processo de desenvolvimento de uma fé racional, percebemos às vezes que defender-se contra um oponente não exige de nós nenhum esforço. Em certas ocasiões, a maneira mais fácil de lidar com um ponto de vista contrário ao seu não é alimentá-lo com mais informações, mas, sim, usar uma tática que revele a falácia do raciocínio do seu objetor. Umas das mais eficazes é uma que eu chamo de tática do “suicídio”.

Certa vez alguém disse que se você der corda o bastante para uma pessoa, ela irá se enforcar. A tática do “suicídio” tira vantagem da tendência de muitos argumentos se autodestruírem quando são enunciados. Essas ideias caem na armadilha de sua própria esperteza e logo se evaporam.

Elas são comumente conhecidas como pensamentos que se autorrefutam, ou seja, ideias que anulam a si mesmas. Não raro, pensamentos que se autorrefutam são evidentes. A declaração “Meu irmão é filho único” é um exemplo. Um outro exemplo  foi visto impresso na camiseta de um estudante de filosofia. Na frente, lia-se: “A frase na parte de trás dessa camiseta é falsa.” Atrás, estava escrito, “A frase na parte da frente dessa camiseta é verdadeira”.

Se for verdadeira, é falsa

Uma visão que se autorrefuta é necessariamente falsa. Não lhe é nem possível ser verdadeira. Mas se der a impressão de ser à primeira vista, ainda assim se provará falsa. Eis a razão.

O filósofo J. P. Moreland observa que toda declaração é sobre alguma coisa. Por exemplo, “Cachorros têm pulgas” é sobre cachorros. Às vezes, algumas afirmações incluem em si próprias aquilo a que elas estão se referindo. A frase “Todas as sentenças em português são curtas” refere-se a todas as sentenças em português, incluindo ela mesma. Quando uma afirmação falha em satisfazer seu próprio critério de validade, temos uma afirmação que anula a si mesma. Não há possibilidade de ela ser verdadeira.

Outro exemplo, a sentença “Não sei falar uma palavra em português” se autorrefuta quando pronunciada em português. A afirmação de que não há frases com mais de cinco palavras também é necessariamente falsa (conte as palavras). Da mesma forma, ideias que se autorrefutam já trazem dentro de si as sementes de sua própria destruição. Expressam uma contradição e, portanto, um conceito que anulam a si mesmas. Sua tarefa é apenas ressaltar isso e depois observar esse conceito se destruir. Se você estiver atento, isso pode ser feito quase sem esforço, como Charlie Brown demonstra nesse diálogo com Sally:

Sally: “‘Não!’ Esta é minha nova filosofia. Não me interessa o que qualquer pessoa diga, a resposta é ‘Não!’.”

Charlie Brown: “Esta é sua nova filosofia, certo?”

Sally: “Sim! Quer dizer, ‘Não!’…[Desesperando-se] Você destruiu minha nova filosofia.”

Isso acontece o tempo todo. Durante uma transmissão de rádio, discordei da teologia de alguns televangelistas. Imediatamente fui contestado por um ouvinte que ligou e disse: “Você não deveria corrigir líderes cristãos de forma pública numa rádio”. Eu respondi, “Então por que você está ligando para me corrigir de forma pública em meu programa de rádio?”

Já outros, convencidos de que argumentar é proibido pelas Escrituras, argumentam com persistência de que estou sendo desobediente às ordens bíblicas ao assumir posicionamentos contrários aos de meus ouvintes.

Há os que rejeitam a missão da apologética por acharem que a razão nunca é adequada na busca de descobrir a verdade. Em seguida, essas mesmas pessoas listam, de forma sistemática, as razões que as levam a pensar que a opinião delas é verdadeira.

Aqui estão alguns outros exemplos evidentes que encontrei ao longo dos anos:

“Não existem absolutos.” (Você tem certeza absoluta disso?)

“Ninguém pode saber nenhuma verdade sobre religião.” (E de que maneira, exatamente, você veio a saber essa verdade sobre religião?)

“A ciência é o único método seguro de descobrir a verdade.” (Que experimento científico te ensinou essa verdade?)

Abaixo mais exemplos diretos de declarações que se autorrefutam. Como você revelaria as falhas delas?

“Não se pode saber nada com certeza.”

“Falar sobre Deus é algo sem sentido.”

“Só se pode conhecer a verdade através da experiência.”

“Acho que não devemos impor aos outros os valores de outra pessoa.”

Embora estes sejam exemplos óbvios de declarações que derrotam a si mesmas, às vezes as falhas são mais sutis.

O relativismo moral se autodestrói

Sempre que alguém disser, “Você não deve me impor sua moralidade”, pergunte “Por que não?”. Geralmente, a resposta será um exemplo de imposição de moralidade por parte dessa pessoa. Para que a objeção faça sentido, ela terá que afirmar um padrão moral enquanto nega a existência de quaisquer normas morais. Essas tentativas se reduzem a “Você está errado em dizer que as pessoas estão erradas”, ou, de forma mais direta, “Você não deve julgar, seu intolerante mesquinho”. Essas declarações são muitas vezes apelos em favor da tolerância. Uma pessoa não deve tentar mudar as crenças de outra.

Mas isso não é um avanço. A exortação em si é uma tentativa de te persuadir a mudar suas crenças “intolerantes”.

Para ilustrar esse ponto, eu estava tendo uma conversa amigável com um não cristão quando chegamos ao tema da homossexualidade. Ele logo se ofendeu com minha visão “condenatória”.

“Sabe, esse é o problema dos cristãos”, ele disse. “Estão sempre julgando a moral das outras pessoas”. Por um momento, ele ficou sem palavras quando mostrei que essa frase constituía um interessante julgamento moral da parte dele. Recuando, ele refez seu discurso e tentou argumentar de outra maneira.

“Está bem”, ele admitiu após refletir um pouco. “Acho que não há problema em julgar, desde que você não tente impor sua moralidade sobre os outros”. Ele pensou que isso resolveria seu problema. Enganou-se.

“Essa é a sua moralidade?” Perguntei. Ele assentiu. “Então por que você está impondo-a sobre mim?”. Ele estava de volta à “estaca zero.”

Depois de algumas tentativas frustradas, ele desiste: “Isso não está certo. Não consigo achar uma forma de dizer isso de modo que funcione.” Ele achou que eu estava brincando com ele.

Sorri discretamente. “Você não consegue achar uma forma porque ela não existe. Sua frase é contraditória. Não há como ela ser verdadeira.”

Relativistas morais sempre são pegos nessa dificuldade. É como se dissessem, “Não existem regras morais; aqui está uma.”

A única maneira de um relativista ser consistente é dizer, “Sinto que está errado, mas meu parecer não passa de uma opinião pessoal e não tem nada a ver com você. Por favor, desconsidere meus comentários.

C. S. Lewis faz a seguinte observação:

“Sempre que encontramos um homem a afirmar que não acredita na existência do certo e do errado, vemos logo em seguida este mesmo homem mudar de opinião. Ele pode não cumprir a palavra que lhe deu, mas, se você fizer a mesma coisa, ele lhe dirá “Não é justo!” tão rápido que você não terá tempo de dizer palavra alguma. Um país pode dizer que os tratados de nada valem; porém, no momento seguinte, porá sua causa a perder afirmando que o tratado específico que pretende romper não é um tratado justo. Se […] não existe um certo e um errado […] qual a diferença entre um tratado justo e um injusto?”

É possível que alguém discuta com você com entusiasmo e eloquência em defesa do relativismo moral e, contudo, reclame quando alguém toma a frente dele na fila. Essa mesma pessoa alegará tratamento injusto recebido no trabalho e denunciará a injustiça no sistema legal. Criticará os políticos desonestos que traem a confiança do povo e condenará os fundamentalistas intolerantes que impõem seus pontos de vista morais sobre outros. Acontece que, cada uma dessas objeções não tem sentido nenhum, são exemplos de um raciocínio autodestrutivo.

É a verdade verdadeira?

Em um debate acerca do pós-modernismo na Universidade Chapman, defendi o que parecia ser uma alegação bastante modesta: A verdade objetiva pode ser conhecida. Meu oponente, Dr. Marv Meyer, foi forçado a argumentar contra minha proposição, declarando de forma eficaz que ele conhecia a verdade que não se podia conhecer.

Esse debate me fez lembrar de um mestre de obras que, certo dia, reclamava da qualidade do ar em Los Angeles. “Essa fumaça está me matando,” ele disse. “Preciso de um tempo. Vou aqui fora fumar um pouco”. O comentário dele encerra uma contradição. Ele fez referência a algo condenável e, em seguida, passou a fazer, sem perceber, justamente o que ele tinha condenado. Não notou nenhum conflito entre sua reclamação e seu procedimento.

A proposta do Dr. Meyer era muito semelhante à declaração do mestre de obras. Primeiro, meu oponente argumentava que o conhecimento era de determinada forma. Segundo, afirmava que o conhecia tal como ele é. Ao longo de todo o debate, ele sustentou que essas afirmações são falsas. Meu trabalho já estava feito antes mesmo de eu começar.

Nas minhas considerações finais, eu disse à plateia que concordava alegremente com muitas das afirmações feitas pelo meu oponente. Elas provavam meu ponto.

“Quando lhes for solicitado que votem ao final do debate desta noite”, eu disse, “muitos de vocês votarão a favor da proposta de Marv, o que significa dizer que ele convenceu vocês de que a perspectiva dele era a verdadeira e a minha era a falsa. Caso isso aconteça, terei a certeza de que tive êxito em defender meu argumento. Com satisfação, considerarei cada voto para Marv como um voto a favor da seguinte resolução: A verdade objetiva pode ser conhecida.”

A versão “cristã” do pós-modernismo não se sai melhor. Alguns pensadores cristãos flertam com o relativismo, batizando-o com linguagem religiosa. “Há dois tipos de verdade”, eles dizem, “a verdade de Deus e a verdade do homem. A verdade de Deus é absoluta e só pode ser conhecida por ele. Só podemos conhecer a verdade do homem, que é limitada e relativa às nossas perspectivas pessoais”. Minha pergunta é: que tipo de verdade se reflete nessa afirmação? Se é a Verdade de Deus, como eles vieram a saber o que só Deus pode conhecer? Se é meramente a perspectiva falível do homem, então por que eu deveria confiar em uma generalização tão abrangente sobre a questão da verdade absoluta?

“Suicídio” religioso

O conceito de pluralismo religioso, o qual afirma que todas as religiões são igualmente verdadeiras, também se autorrefuta.

Se todas as religiões são verdadeiras, então, segue-se que o cristianismo é verdadeiro. No entanto, uma das verdades do cristianismo afirma que as outras religiões são falsas. Ou o cristianismo é verdadeiro e as outras religiões são falsas ou alguma outra visão de mundo é verdadeira e o cristianismo é falso. Em qualquer um dos casos, não é possível que todas as religiões sejam verdadeiras.

Uma objeção comum à noção de inspiração bíblica diz o seguinte: A Bíblia foi escrita somente por homens. Trata-se de um livro repleto de ideias humanas e todas as ideias humanas possuem falhas. Portanto, a Bíblia é um livro cheio de falhas.

Se todas as ideias humanas possuem falhas, então, a ideia de que todas as ideias humanas possuem falhas também é uma ideia falha, o que configura uma contradição. A objeção se autodestrói.

C. S. Lewis cita um exemplo que ilustra esse mesmo problema. Em resposta à alegação freudiana e marxista de que todos os pensamentos são, em sua origem, psicológica ou ideologicamente marcados, Lewis escreve:

“Se eles afirmam que todos os pensamentos são assim marcados, então, obviamente, devemos lembrá-los que o freudismo e o marxismo são sistemas de pensamento da mesma forma que o são a teologia cristã ou o idealismo filosófico. O freudiano e o marxiano acham-se no mesmo barco em que todos nós estamos, e não podem nos criticar como se estivessem do lado de fora. Fazendo isso, cortam o galho sobre o qual eles mesmos estão sentados. Se, em contrapartida, eles disserem que o estar marcado não precisa invalidar o pensamento deles, tampouco, portanto, precisa invalidar o nosso. Nesse caso, eles salvam o galho em que estão, mas também salvam o nosso.” (God in the dock, p. 300)

O hinduísmo como uma visão religiosa também parece transigir com noções contraditórias. Ele sustenta que a realidade como a conhecemos é uma ilusão, uma ideia que se chama Maya dentro da perspectiva hinduísta. Somos todos parte dessa ilusão e não existem identidades individuais verdadeiras.

Minha pergunta é: se sou parte dessa ilusão, como eu poderia saber disso? Como eu conseguiria possuir o verdadeiro conhecimento de que não existo ou possuir qualquer espécie de conhecimento se não sou real? Os indivíduos em um sonho sabem que não passam de fantasmas? Charlie Brown sabe que ele é um personagem de desenho animado?

O conceito hindu de que o mundo é uma ilusão contradiz a ideia de que eu posso ter o conhecimento que me diz que não sou uma mera ilusão, o que torna o conceito hindu um pensamento que se autorrefuta.

A maneira mais comum de escapar desse problema é a reivindicação de que a lei da contradição é uma noção ocidental e não se aplica ao pensamento oriental, como o hinduísmo. As noções contraditórias são igualmente verdadeiras no pensamento deles. Mas esse estratagema não é menos autodestrutivo. Se as noções contraditórias são igualmente verdadeiras na religião oriental, então a visão contrária – a de que as contradições de fato devem ser levadas em conta –, tem de ser aplicada também.

Liberdade, racionalidade e conhecimento

Há quem defenda que tudo na vida é determinado por condições físicas prévias e que, na verdade, a liberdade da vontade não é uma realidade. O mesmo pode ser dito se a alma não existir.  Se não há um centro dentro de nós que exerça livre arbítrio, segue-se que todas as nossas “escolhas” não passam de resultados inevitáveis de forças físicas cegas.

E o problema é justamente esse. Sem liberdade genuína, não pode haver racionalidade. Ninguém seria capaz de escolher suas crenças fundamentando-as em alguma base de evidências. As crenças seriam sustentadas por que assim haviam sido predeterminadas.

Por esse motivo, é estranho quando alguém tenta argumentar a favor do determinismo. Sua convicção não pode estar baseada em razões, nos méritos da posição em si, mas em condições prévias que produziram tal crença. Essa pessoa estaria “determinada” a acreditar no determinismo enquanto outras estariam “determinadas” a discordar dele.

Portanto, se não há livre arbítrio, nem sequer se poderia saber disso. Todos os nossos pensamentos, atitudes e opiniões seriam frutos de uma predeterminação em vez de terem sido escolhas com base em boas razões.

Há outros que limitam o campo do conhecimento apenas aos fenômenos que podem ser testados empiricamente. Para eles, todo conhecimento se baseia na observação. Mas essa é uma verdade que eles aprenderam com base na observação? E mais: será que eles observaram todo conhecimento a fim de saberem qual a natureza de todo conhecimento?

Alvin Plantinga, da Universidade de Notre Dame, chama essa tendência suicida de “labirinto filosófico”. Se você usa a ideia em outra pessoa, ele diz, é bem possível que você já esteja preso nela.

Você é aquilo que come?

Certa vez vi uma placa em um restaurante na qual se lia, “Você é o aquilo que come”. Ressaltei para o garçom que se somos o que comemos, logo não poderíamos ser algo até que comêssemos alguma coisa. Mas não podemos comer algo até sermos algo. Assim, não é verdade que somos o que comemos.

O garçom me olhou e disse, “Você terá que conversar com o gerente.”

Sempre esteja atento a argumentos com tendências suicidas. Faça a pergunta, “Essa posição carrega em si as sementes de sua própria destruição?” Não pense que você precisa fazer todo trabalho refutando um argumento ruim. Mantenha-se atento e fique em alerta. Quando perceber que o ponto de vista de seu oponente é autodestrutivo, faça uma pergunta que explore o problema. Então deixe ele se afogar no próprio navio!

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Traduzido por Reginaldo Castro e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Arguments That Commit Suicide. Stand to Reason.

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Gregory Koukl obteve seu mestrado em filosofia da religião e ética na Talbot School of Theology e seu mestrado em apologética cristã na Simon Greenleaf University. É professor adjunto de apologética cristã na Biola University. Tem apresentado seu próprio programa de rádio por 20 anos, onde defende a cosmovisão cristã.

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Retirado do site: http://tuporem.org.br/argumentos-que-se-autorrefutam/

SANTANDER CULTURAL X PRINCIPIO MORAL

Publicado: 12 de setembro de 2017 em Sem categoria

UM POUCO DE FILOSOFIA POR TRÁS:

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Vamos iniciar este texto pensando um pouco sobre arte Grega e a filosofia de Nietzsche? Assim veremos a relação que há entre essas com o que aconteceu no Santander Cultural.

Na concepção estética Grega antiga existia o trágico que orientava a sua civilização que a principio era traçado por duas forças, a saber: apolíneo e dionisíaco. São duas forças ou impulsos criadores que conduzem o homem artístico. A força apolínea vem da ideia do deus Apolo que é harmonioso, além de apresentar à ética e a estética, a ordem e a medida e a manutenção dos limites. A força dionisíaca vem da ideia do deus Dionísio que é o deus do vinho, da alegria, da fertilidade, da terra, é o culto a vida em proporções universais, e não no principio da individuação, mas também é o deus sofredor, que provoca a destruição dos limites, até aqueles impostos pela ética e dando impulsos para se viver a vida. Dionísio se manifesta como, aparentemente, supressor e aniquilador da singularidade e da bela aparência. Nietzsche ao elaborar seu argumento em cima do veredicto da morte de Deus (na realidade da moral e virtudes cristãs) ele aponta que o princípio regulador da vida existencial e todas as suas esferas (inclusive a arte) deve ser dionisíaco e não apolíneo, ou seja, precisa destruir os limites que impõe os limites da ética, e não se importa necessariamente com o Belo.

O Santander Cultural – que é um centro cultural brasileiro mantido pelo Santander em um prédio histórico em Porto Alegre – promoveu uma exposição de artes (queermuseu) que afrontou a fé cristã e fez apologia a imoralidades como a pedofilia e a zoofilia (para mais veja o vídeo): https://www.youtube.com/watch?v=cXhBRfTgHgs. O que essa exposição realizou está intimamente ligado ao conceito estético nietzschiano, pois passou dos limites da ética e não se importou com o Belo.

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O QUE DIREMOS, POIS?

Diante deste contexto nasce à pergunta de como a fé cristã, revelada na bíblia, deve se relacionar com tal problemática. Com certeza, primeiramente, denunciando bíblica, doutrina e teologicamente cada item ofensivo, abusivo e abominável que fora expresso nessa exposição como citado. Contudo, não será a pauta deste texto. A outra maneira pela qual a fé cristã pode lidar com este assunto é refletir sobre a arte e o seu dever de um ponto de vista bíblico, e é isso que aqui faremos.

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VISÃO BÍBLICA:

A primeira referência que há das artes nas Escrituras é em Gn 4.21, em sua expressão musical: O nome do seu irmão era Jubal, que foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. Interessante fazer três observações: 1) A partir desde texto nascem as expressões artísticas; 2) Jubal era da descendência ímpia de Adão, ou seja, de Caim (vs/1 – 17), e não da descendência que veio o homem de Deus, Noé, que é a de Sete (4.25 – 5.28); e 3) A nascente da arte foi em uma época antes de começarem a invocar o nome do Senhor (4.26b). Logo, a arte em si, da forma terrena, nasceu em uma época de “separação” total do Senhor. Porém, isso não quer dizer que as artes são do mundo do mal e de natureza ímpia, pois vemos a música, a harpa e a flauta serem utilizadas diversas vezes pelo povo de Deus como ato de adoração e louvor. Dentre algumas citações a mais famosa é a do músico e Rei Davi.

O que afirmamos diante do exposto é que a arte é um dom natural dado por Deus para os homens em geral, sejam eles cristãos ou não. Cremos que assim Deus, pois existe a graça comum dEle para todos (Sl 145.9, 15 e 16; Ec 9.2 e 3a; Mt 5.44 e 45; Ar 14.16 e 17). Nota-se aqui, ainda, que a arte não é só utilizada para o louvor e adoração (isso é uma visão utópica da estética em Agostinho e no período medieval), contudo, também é para o deleite do homem criado por Deus, e, também, faz parte da graça comum de Deus para todos; por isso que sentirmos prazer ao ouvir uma música, apreciar um quadro, ver um teatro ou assistir um filme.

Todavia, para que este dom seja aplicado é necessário que haja um principio regulador que se chamamos de leis naturais. Essas leis todos os seres humanos têm em sua consciência, sem ter aprendido da mesma, pois vieram diretamente de Deus (Rm 2.14 – 15): De fato, quando os gentios, que não têm lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os. Ela tem relação com a lei moral, a qual controla o nosso instinto a fazer o que é certo, pois os seres humanos têm consigo dois instintos, um que leva às atitudes erradas, e o outro que os leva às atitudes certas. A lei moral e as leis naturais devem ser o princípio regulador, portanto, no desenvolvimento ou exposição de qualquer obra de arte para que não seja uma afronta a Deus e um desrespeito ao próximo. Pode-se ver que esta lei foi vista: 1) parcialmente, por um homossexual que denunciou a exposição artística em discussão; 2) Pela população que tem votado, em sua maioria, pelo cancelamento da exposição através de uma enquete (https://jornalivre.com/2017/09/12/jornalista-da-globo-news-faz-enquete-sobre-exposicao-do-santander-no-twitter-e-internautas-demonstram-repulsa-pelo-evento/); e 3) Pelo Facebook que censurou este movimento (https://jornalivre.com/2017/09/12/contradicao-ate-o-facebook-com-sua-agenda-esquerdista-esta-censurando-fotos-da-exposicao-queermuseu/).

As expressões artísticas em questão, do Santander Cultural, são expressões imorais e que defendem atitudes abomináveis, desrespeitosas, para com Deus e a sociedade. Tais artistas e exposição cultural precisam de limite. Como vi hoje à tarde alguém dizer em um seriado: As regras (leia-se leis naturais e moral) é que nos separam dos animais. Tenhamos sabedoria e sensibilidade para produzir e apreciar a arte, a graça comum dada dEle para nós. Ainda falando sobre a graça comum eu consigo identifica-la em grupos que se mobilizaram para “boicotar” essa blasfêmia cultural, social e religiosa que ocorria, dentre esses grupos destaco o MBL (Movimento Brasil Livre): https://www.youtube.com/watch?v=I8RkIFuEsWs. Que nós, cristãos, juntos com os que têm a sensibilidade a graça comum de Deus possamos honrar o mandato cultural dado a nós em todas as esferas da vida, inclusive desta em questão: O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo (Gn 2.15). Então cuidemos e cultivemos com bom senso, respeito e moral aquilo que nos é confiado!

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UM OUTRO LADO DA FILOSOFIA:

Em contraponto a Niezstche na estética (que analisa filosoficamente a arte e o belo) há Theodor Adorno, musicista e conhecedor teórico e prático dos fenômenos artísticos. Grande filósofo do campo da estética! Analisando sua obra e desenvolvimento sobre a Indústria Cultural vê-se que a alienação da obra de arte atinge também o gosto, assim, não há obra de arte autêntica, há apenas modismos e criações estereotipadas que recebem o nome de arte, mas que na verdade não são. Isso fica muito claro na exposição do Santander! Como disse Adam Sócrates: Toda arte é expressão pessoal, mas nem toda expressão pessoal é arte.

Em Theodor Adorno ainda consegue-se entender que de modo geral, quando contemplamos uma obra de arte, há uma “satisfação imediatista do ego”, porém muitas vezes é pobre, alienada, fetichizada, reducionista, banalizada, estereotipada (como vimos no dionisíaco niezstchiano). O prazer proposto é em si uma negação disfarçada da possibilidade de satisfação integral do prazer. A fetichização corrompe as obras de arte em algo indecente. Não há qualquer tipo de critério relativo à qualidade. A consequência imediata desse processo é a vulgarização do Belo, de forma que as pessoas vivem como se fosse possível encontrar uma obra de arte a cada esquina a qualquer momento. A obra de arte é exposta ao ridículo. As telas pintadas por elefantes ou macacos são mais valorizadas do que as obras clássicas dos pintores. Adorno insiste, em sua obra, implacavelmente, na necessidade de que a arte e o pensamento modernos sejam difíceis, complexos e sistematizados, buscando assim preservar sua verdade e vigor, recusando assim qualquer tipo de banalização.

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CONCLUSÃO: POR UMA ESTÉTICA CRISTOCÊNTRICA!

Não posso encerrar sem afirmar que tal aberração (Santander Cultural + Estética Nietzschiana) é fruto da queda do homem no Éden (Gn 3) que trouxe consequências do pecado para todas as esferas da vida, inclusive da artística. Contudo, Cristo morreu não só para redimir o homem dos efeitos do pecado, mas, também, todas as esferas da vida, pois: convergiu em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas… e por meio de Jesus reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as questão na terra quanto as que estão nos céus (Ef 1.10; Cl 1.20). Logo, necessitamos fazer que as expressões artísticas sejam direcionadas a Cristo, tendo-o como fundamento. Das seguintes maneiras: 1) Não permitindo que se torne imoral como visto acima; 2) Aplicando as virtudes cristãs e remando contra a maré que Nietzsche, Deleuze e Guatarri propuseram; e 3) Usá-las para que glorifique a Deus e aponte para Cristo, como Paulo fez com a poesia grega em At 17.24 – 31.

Infelizmente, o que vimos no Queermuseu foi uma má aplicação do ideal renascentista (o homem ser a medida de todas as coisas). Em contraponto lutemos por uma arte com princípio regulador e desenvolvemos uma estética cristocêntrica!

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